Discurso de Rui Barbosa.
Discurso feito no Senado Federal em 14 de
dezembro de 1914 por Rui Barbosa. - Sinto vergonha de mim, por ter sido
educador de parte deste povo, por ter batalhado sempre pela justiça, por
compactuar com a honestidade, por primar pela verdade, e por ver este povo já
chamado varonil, enveredar pelo caminho da desonra. Sinto vergonha de mim, por
ter feito parte de uma era que lutou pela democracia, pela liberdade de ser e
ter que entregar aos meus filhos, simples e abominavelmente a derrota das
virtudes pelos vícios, a ausência da sensatez no julgamento da verdade, a
negligência com a família, célula-mater da sociedade, a demasiada preocupação
com o ‘eu’ feliz a qualquer custo, buscando a tal ‘felicidade’ em caminhos
eivados de desrespeito para com o seu próximo. Tenho vergonha de mim pela
passividade em ouvir, sem despejar meu verbo a tantas desculpas ditadas pelo
orgulho e vaidade, a tanta falta de humildade para reconhecer um erro cometido,
a tantos ‘floreios’ para justificar atos criminosos, a tanta relutância em
esquecer a antiga posição de sempre ‘contestar’, voltar atrás e mudar o futuro.
Tenho vergonha de mim, pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos que não quero percorrer… Tenho vergonha da minha
impotência, da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir, pois amo este meu chão, vibro ao ouvir o meu Hino e
jamais usei a minha Bandeira para enxugar o meu suor, ou enrolar o meu corpo na
pecaminosa manifestação de nacionalidade. Ao lado da vergonha de mim, tenho
tanta pena de ti, povo deste mundo! Mas justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e
manifesta. Porque a dilação ilegal nas mãos do julgador contraria o direito
escrito das partes, e, assim, as lesa no patrimônio, honra e liberdade... Os
tiranos e bárbaros antigos tinham por vezes mais compreensão real da justiça
que os civilizados e democratas de hoje. ‘De
tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver
crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude. A rir-se da honra, a ter vergonha de ser
honesto’.

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