O poeta e o cego.
... - O
poeta lê seus versos para os cegos. Não esperava que fosse tão difícil.
Sua voz fraqueja. Suas mãos tremem. Ele sente que cada frase
está submetida à prova da escuridão. Ele tem que se virar sozinho,
sem cores e luzes. Uma aventura perigosa para as estrelas da
poesia, para as manhãs, o arco-íris, as nuvens, os neons, a lua, para
o peixe tão cintilante sob a água e o falcão tão alto e quieto no céu.
Ele lê-pois já não pode parar – sobre o menino de casaco amarelo num
campo verde, telhados vermelhos que se contam no vale, números
irrequietos na camisa dos jogadores e a escoteira de farda, na fresta da
porta. Ele gostaria de omitir – embora seja impossível – todos os
santos no teto da catedral, a mão que acena do trem em partida, a
lente do microscópio, o anel e seu brilho, as telas de cinema, os
espelhos, os álbuns de fotografia, a chama da fogueira na clareira da mata
escura. Mas é enorme a cortesia dos cegos, admirável a sua
compreensão, a sua grandeza. Eles escutam, sorriem e aplaudem. Um
deles até se aproxima com o livro de cabeça para baixo pedindo um
autógrafo invisível. – Eu queria escrever como a polonesa Wislawa, mas
não consigo. Pela poesia dela alcanço o escoteiro amigo, quem sabe ele aplaude,
comenta ou compartilha. Mas esta é a sina do poeta... Escrever para os cegos
que também são seus amigos!
Boa
noite.

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