Mal me quer.
Mal
me quer... Bem me quer... O que vou escrever? Um pequeno conto ao anoitecer no
acampamento? Falar da lua, das estrelas do firmamento? Das águas cristalinas com
os peixinhos a nadar? Volto ao presente e deixo o passado que já passou. Mas
não faz tanto tempo assim... Cinco anos? Foi minha última vez? O copo de vidro
não estava cheio, um pouco até o meio talvez... Duas pepitas de gelo, duas
azeitonas pretas acompanhando... Despejei devagar, ainda tinha um quarto ou
mais na botelha, mas eu saboreava cada golo devagar, com estalos no céu da
boca... Foi minha última vez. Saudades que machucam. Levado as pressas me internaram.
Quinze dias sem ar, vivendo entre outros seres viventes que não sabiam se iam
sair ou ficar. Mas voltei, todos contra minha sede, meu vicio, um somente, meu
cacoete, aceitei. Cinco anos só lembrando sem poder sorver, dentar a azeitona,
ver o gelo se desfazer no meu rescaldo de uísque cujos sonhos ficou prá trás...
E eis que minha filha me ofertou uma bela garrafa cheia até a borda que me
encantou. Não era um Chivas Regal, um Dalmore, um Johnnie Walker ou um Jack
Daniels. Mas era lindo, peguei o copo de cristal, aquele que canta ao sabor do
dedo, uma pequena dose um dedinho e meio, duas pedras de gelo, sem ter a preta
me fartei com duas azeitonas verdes. Sentei na varanda... Olhei para ele
encantado, fechei os olhos saboreei devagar balançando no céu da boca...
Pensei... A vida é bela demais para esquecer... E como o poeta de botequim
declamei: Se fizer o que gosta e depois morrer, que seja, prefiro morrer a
deixar do que gosto de fazer!
Boa noite.

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